quarta-feira, 1 de abril de 2009

A HISTORIA DO XADREZ


A origem do xadrez é certamente o maior mistério existente no mundo. Infelizmente os historiadores não conseguem chegar a um consenso sobre o lugar de onde se originara o xadrez. O documento mais antigo é provavelmente a pintura mural da câmara mortuária de Mera, em Sakarah (nos arredores de Gizé, no Egito). Ao que parece, essa pintura, representa duas pessoas jogando xadrez e data de aproximadamente 3 000 anos antes da era cristã.


Hoje a teoria mais aceita é que ele se originou na Índia por volta do século VI d.C. Era conhecido como "o jogo do exército" ou "Chaturanga" e podia ser jogado com dois ou mais jogadores. Graças as viagens dos mercadores e dos comerciantes o jogo se espalhou para leste (China) e oeste (Pérsia). Mais adiante os árabes estudaram profundamente o jogo e se deram conta que ele estava bastante relacionado com a matemática, escreveram vários tratados sobre isto e aparentemente foram os primeiros a formalizar e escrever suas regras.


A primeira menção do xadrez está em um poema Persa em qual menciona que a vinda do jogo foi na Índia. O xadrez emigrou para a Pérsia (atual Irã) durante o reinado de Chosroe-I Annshiravan (531-579) e é descrito em um manuscrito persa daquele período. Este texto explica a terminologia, nomes e funções das peças com certo detalhe.


O xadrez também é mencionado na poesia épica de Firdousi (940-1021), Schanamekh - O livro dos reis, no qual ele menciona presentes que são dados por uma caravana do Rajah da Índia na corte do rei Persa Chosroe-I. Entre esses presentes, se encontrava um jogo que simulava uma batalha entre dois exércitos. Registros mostram que havia originalmente quatro tipos de peças usadas no xadrez. O Shatrang (sânscrito Hindú) significa "quatro" e anga significa "lados".


Na dinastia Sassanid (242-651 d.C.) um livro foi escrito no idioma Médio Persa Pahlavi chamado "Chatrang namakwor" (Um manual de xadrez). O shatrang (xadrez) representa o universo de acordo com o antigo misticismo Hindú. Os quatro lados representam os quatro elementos (fogo, ar, terra e água) e as quatro virtudes do homem. Embora os nomes das peças sejam diferentes em vários países hoje, seus movimentos são surpreendentemente parecidos. Na Pérsia, a palavra "Shatrang" se usou para nomear o mesmo xadrez.


Por volta do ano 651 d.C., com a conquista da Pérsia, os árabes adotam este jogo, valorizando-o e difundindo-o por todo o Norte da África, assim como por todos os reinos europeus dominados nos séculos seguintes, em particular para a Espanha (onde recebe, sucessivamente, os nome de: Acedrex, Axedres, Axedrez, Ajedrez), Portugal (Xadrez), a Sicília (Scachi Scacchi), a costa francesa do Mediterrâneo (Eschec, Eschecz, Eschecs, Échecs) e a Catalunha (Escacs, Eschacs, Scacs, Schacs, Eschacos, Schachos).


Os mais antigos manuscritos consagrados inteiramente ao xadrez, denominados Mansubas, aparecem em Bagdá, durante a Idade de Ouro Árabe. Não tendo em sua língua nem o som inicial nem o som final da palavra Chatrang, eles a modificam para Shatranj. Aproximadamente em 840, Al Adli, melhor jogador do seu tempo, publica um manuscrito Livro do xadrez (este original foi perdido).


No início do século IX o califa de Bagdá Haroun-al-Rachid (766-809) oferece a Carlos Magno (768-814) um jogo em mármore, hoje desaparecido. Conservam-se, no entanto, na Biblioteca Nacional de Paris, algumas peças denominadas Charlemagne.


Por volta do século IX o xadrez foi introduzido na Europa por duas vias distintas: segundo uns pela invasão muçulmana da Península Ibérica, e segundo outros, durante o confronto Ocidente-Oriente na Primeira Cruzada. No século XI já era amplamente conhecido no velho mundo.


Uma outra versão bastante aceita para a origem é de que ele tenha se originado na China em 204-203 a.C. por Han Xin, um líder militar, para dar às suas tropas algo para fazer no acampamento de inverno. Um jogo conhecido como "go" que tem um rio, um canhão, um cavalo, uma torre, um rei, um peão e um bispo, sendo que estas quatro últimas peças localizam-se na mesma posição do xadrez ocidental. As peças tem inscrições em caracteres chineses e são colocadas em "pontos". Há duas referências do xadrez na literatura antiga chinesa. A primeira foi de uma coleção de poemas conhecida como "Chu chi". O autor chamava-se Chii Yuan. A segunda é de um famoso livro de filosofia conhecido como "Shuo Yuan" que citava Chu Chi.


Mas existem vários tipos de xadrez: xadrez ocidental, xadrez chinês, xadrez japonês (shogi), xadrez coreano, xadrez burmês, xadrez cambojano, xadrez tailândes, xadrez malaio, xadrez indonésio, xadrez turco e possivelmente até xadrez etíope. Todos tem em comum certos aspectos como: o objetivo é dar xeque-mate ao rei, todos tem o rei no centro, uma torre no canto, um cavalo próximo a ela e peões em frente, e os movimentos dessas peças é idêntico ou quase idêntico ao do xadrez ocidental.


Falar afirmativamente sobre o xadrez ter se originado em tal época e em tal lugar de tal maneria pode ser uma coisa muita mais séria do que se imagina, pois existem muitas pessoas que defendem com todas as forças que a origem do xadrez foi na Índia, enquanto alguns outros afirmam com toda certeza que ele surgiu na China muito antes do que na Índia. Infelizmente não chegamos a um acordo sobre tudo isso, pois a origem do xadrez já foi atribuída até ao rei Arthur, ao rei Salomão, aos sábios mandarins contemporâneos de Confúcio, aos Egípcios e aos Gregos, no cerco à Tróia, para distrair os soldados. O correto é que tenha se originado de onde for o xadrez é um do jogos mais prestigiados do mundo, sendo tratado muitas vezes como arte ou ciência.


As regras e os movimentos das peças sofreram alterações ao longo do tempo, mas ultimamente as regras são as mesmas desde o século XV.


Na Idade Média, o "jogo dos reis" adquire, rapidamente, o status de passatempo favorito da sociedade aristocrática européia, sendo proibida a sua prática entre os pobres. Recomenda-se começar sua aprendizagem aos seis anos de idade. As mulheres nobres não hesitam em sentar-se em frente do tabuleiro, mostrando-se, inclusive, tão hábeis quanto os homens. Estes, só têm o direito de entrar em um aposento feminino com o objetivo explícito de jogar xadrez.


No século XIII as casas do tabuleiro passaram a ser dividas em duas cores para facilitar a visualização dos enxadristas. O duplo avanço do peão em sua primeira jogada surgiu em 1283, em um manuscrito europeu.


Mas uma das principais alterações aconteceu aproximadamente em 1485, na renascença italiana, surgindo o xadrez da "rainha enlouquecida". Até esta época não existia ainda a peça rainha, e em seu lugar havia uma chamada Ferz, que era uma espécie de Ministro. Ele, que só podia deslocar-se uma casa por vez pelas diagonais, transformou-se em Dama (Rainha) ganhando o poder de mover-se para todas as direções.


A transformação de uma peça masculina em Rainha pode ser considerada como um indício da crescente valorização da mulher durante o período medieval, mas também como metáfora de uma sociedade dominada por um casal monárquico. Porém, para o psicanalista Isador Coriat é possível que esta metamorfose tenha sido motivada por uma tendência a identificar-se inconscientemente o xadrez com a estrutura do complexo de Édipo, o Rei simbolizando o pai e a Rainha a mãe.


Por volta de 1561 o padre espanhol Ruy Lopez de Segura, que foi o melhor jogador deste período, propôs a utilização do roque. Esta alteração será aceita na Inglaterra, França e Alemanha somente 70 anos depois. O movimento En Passant já era usado em 1560 por Ruy Lopez, embora não se conheça seu criador.


Em vinte anos as inovações espalham-se e as duas modalidades de xadrez coexistem por toda a Europa. A nova maneira de jogar imprime um maior dinamismo às partidas, devido à grande riqueza combinatória que ela proporciona, e o antigo xadrez é, rapidamente, relegado ao esquecimento.


segunda-feira, 30 de março de 2009

ESTILO INDIVIDUAL: O Jôgo Psicológico


Quando se analisa os elementos individuais da estratégia , consideramos o jogo de xadrez como um processo impessoal envolvendo trinta e duas peças e sessenta e quatro casas.Isto é, sem dúvida, uma representação muito simplificada.Uma partida de xadrez é uma luta entre dois contendores, levada a efeito sob certas condições concretas , mas as pessoas nunca estão isentas de falhas e são, inevitavelmente, em maior ou menor grau, influenciadas por assuntos particulares - tendo ainda, caracteres diferentes.Tudo isto se reflete em sua produção enxadrística.

Cada enxadrista, seja mestre eminente ou jogador da pior categoria, põe em suas partidas certos elementos de seu estilo pessoal de jôgo.Seu estilo não é apenas a soma de seus conhecimentos enxadristicos e opiniões sobre o jogo; é, em ampla extensão, a expressão de seu caráter.Se estudarmos as partidas de um jogador pessoalmente desconhecido nosso, poderemos descobrir muitas coisas sobre seu caráter, por suas partidas, por outro lado, quando conhecemos bem alguma pessoa, somos capazes, como um certo grau de certeza, de indicar que estilo de jôgo escolherá em uma patida de xadrez.Um homem cauteloso e preocupado com a vida não entrará facilmente em uma partida arriscada; alguem de natureza frívola , por sua vez, conduzirá sua partida perigosamente, frequentemente sem uma avaliação apropriada das possibilidades a sua disposição e ao oponente.O otimista tende a superestimar sua posição, ao passo que o pessimista vê perigos e dificuldades em cada momento.O estilo individual de jôgo é um reflexo do caráter do enxadrista.

quinta-feira, 26 de março de 2009

ASSIM NASCEM OS GRANDES MESTRES PARTE III

Assim Nascem Os Grandes Mestres - Parte III

 Acontecimentos Marcantes

 

Antes de apresentarmos as partidas e o quadro final do Torneio, vejamos alguns momentos que marcaram para sempre o I Torneio Peão de Ouro do Brasil:

Coluna do Mangini, o Globo, 26/01/1982 - O Torneio Internacional Peão de Ouro para jovens de até 16 anos, teve o maior êxito, e foi ganho pelo islandês Karl Thorsteins, depois de haver desempatado a prova com a revelação peruana Julio Granda Zuniga. Participaram 12 países e entre eles estava o mais novo Mestre Internacional da atualidade de 14 anos, Saeed Ahmed Saeed, dos Emirados Árabes Unidos. O brilho da prova foi nublado pelo triste acidente do representante inglês Ian Wells, vítima de afogamento. Embora sob cuidados médicos, ainda hoje seu estado é muito grave. A representação nacional, como era de esperar, sofreu a falta de experiência numa competição de alto nível. No entanto o bom preparo físico e técnico, evidenciaram que em futuras competições, devemos subir aos primeiros lugares. O quinto lugar de Sandro Heleno e o sétimo de Aron Correa e algumas vitórias isoladas dos outros componentes, exemplo, a vitória na penúltima rodada de Paterson, contra Thorsteins ou de Ivan Souza contra Saeed nos mostram a exatidão do preparo e orientação da Fundação Roberto Marinho. Estes são os primeiros frutos da árvore plantada há poucos anos.

A coluna de Mangini havia sido redigida 1 dia e meio antes, pois no jornal do mesmo dia, vinha a notícia:

ENXADRISTA INGLES MORRE NO HOSPITAL - O enxadrista inglês, Ian Wells, de 17 anos, depois de 5 dias em coma não resistiu e morreu ontem de manhã no Hospital dos Servidores do Estado. Wells, um dos 16 participantes do torneio Peão de Ouro, que reuniu no Hotel Othon Palace, afogou-se na praia de Copacabana na terça-feira passada, horas após encerrar sua participação na competição. A pedido da mãe, Sheila Wells, os organizadores do Peão de Ouro tomarão todas as providencias para que o corpo possa ser embarcado hoje para a Inglaterra.

Roberto Porto, enxadrista conhecido no Rio e morador do bairro Flamengo escreveu para o Jornal - DESCANSE EM PAZ - IAN WELLS era pouco mais do que um menino. Veio da Inglaterra, na qualidade de campeão juvenil, disputar em Copacabana o primeiro torneio de xadrez Peão de Ouro. Terminado o seu último compromisso, saiu do hotel com outros jovens enxadristas e foi aproveitar um último banho de mar, antes de voltar para a Europa. De repente, seu corpo desapareceu. Quando o mar o devolveu à praia, seu cérebro já não funcionava. Foi levado para o CTI de um hospital. Transformara-se em algo semelhante a um vegetal. Um drama doloroso, cruel, injusto, para com um jovem promissor, um possível novo mestre de xadrez para a Inglaterra. País subdesenvolvido, o Brasil tem poucos adeptos do fascinante jogo de xadrez. Muito pouca gente ficou sabendo: muito pouca gente se comoveu. Publicidade e propaganda distribuem - aos quatro ventos - as emoções. Ian Wells era apenas um enxadrista e seu drama contristador não teve qualquer divulgação.

Em 29/03/1982 (portanto dois meses depois) no GLOBO:

Os pais do ex-campeão mundial infantil de xadrez, o peruano Júlio Granda Zuniga, chegaram a temer que seu filho, desaparecido há quatro dias, em Lima, tivesse sido seqüestrado. Mas ontem, Daniel Zuniga, pai de Júlio, admitiu que o enxadrista de 15 anos tenha voltado ao Rio de Janeiro para se encontrar com seu "amor tempestuoso", uma jovem carioca que conheceu em janeiro quando disputou o Torneio Internacional Peão de Ouro. Daniel afirmou que Júlio relutou em viajar para o Peru após a competição: - Depois que conheceu uma jovem, cujo apelido é Uloa, meu filho se trancava no quarto do hotel para ficar com ela. Já não admito a hipótese do seqüestro: que dinheiro um homem que trabalha pra sustentar os 7 filhos teria para pagar o resgate?

XADREZ SENTIMENTAL - O representante do Peru no Campeonato Mundial Junenil de Xadrez (?? - esta é minha -P. A.) realizado durante o verão, no Rio, desapareceu de casa, há dias, deixando sua família preocupadíssima e temerosa de um seqüestro. No começo da semana passada, ele foi localizado quando tentava passar a fronteira do Brasil e tudo se explicou: não se tratava de seqüestro, nem de rompimento com a família, mas sim de paixonite aguda contraída durante o torneio. Trocado em miúdos: o rapaz fora vítima de um xeque-mate de uma cocota copacabanense.

No dia 17/01/1982 - José Thiago Mangini publicou o resultado da decisiva partida entre o brasileiro e o ingles:

Sandro Trindade-Brasil (2000) - Ian Wells- Inglaterra (2000) [A04]

I Torneio Peão de Ouro (13), 17.01.1982.

1.e4 c6 2.d4 d5 3.e5 Bf5 4.Nc3 Outra linha possível seria: [4.Nf3 e6 5.Be2 c5 6.Be3 Nd7 7.0-0 Ne7 8.c4 dxc4 9.Na3 Nd5 10.Nxc4 Be7 11.Nd6+ Bxd6 12.exd6 0-0 13.dxc5 Nxe3 14.fxe3 Nxc5 15.Qd4 Qb6 Porém o branco agora teria o forte lance Nh4! (Pedro Alcântara)] 4...e6 5.g4 Bg6 6.Nge2 f6 7.Nf4 Bf7 8.Nd3 Nd7 9.Be3 Ne7 10.f4 h5 11.Be2 c5 ? As pretas entregam um peão na esperança de minar o centro do adversário e lograr contra jogo. O domínio de espaço obtido pelas brancas é bem nítido (Mangini) 12.Nxc5 Nxc5 13.dxc5 Nc6 14.Bb5 Qa5 15.Qd4 fxe5 16.fxe5 0-0-0 17.Bxc6 bxc6 18.g5 Bg6 19.Kd2 O monarca branco defende o peão "c" e escuda-se no bloco central de peões. Uma posição original (Mangini). Outra linha bastante ativa seria: [19.b4 Qa3 20.0-0 Be7 21.b5 de tal forma que o rei branco estaria menos exposto (Pedro Alcantara)] 19...Be7 20.b4 Qc7 21.a4 Rdf8 22.Rhf1 Qd8 23.h4 Rxf1 24.Rxf1 Rf8 25.Rb1! Sandro optou, acertadamente, ao preferir dominar a coluna "b", pois que a posse de coluna "f" pelas pretas não apresenta risco (Mangini) 25...Rf3 26.b5 Qa5 27.Kc1 O MI Herman Claudius apontou como melhor a seguinte variante: [27.bxc6 Rxe3 28.Rb5 Qxc3+ 29.Qxc3 Rxc3 30.Kxc3 Be8 31.Rb7 Bxc5 32.Rxg7 Bxc6 33.g6!] 27...Rh3 Perde um precioso tempo (Mangini) 28.Bd2 Ameaça Nxd5 28...Qd8 29.bxc6 Rh1+ 30.Kb2 Um erro de concepção. A torre deveria ser mantida para pressionar a posição inimiga.As brancas deveriam ter jogado Nd1! Ameaçando o sacrifício de torre com Rb8+, KxR seguido de Qb4+, Qb7++mate! 30...Rxb1+ 31.Kxb1 Qf8? 32.Qb4 Qf1+ 33.Kb2 Qa6 34.Nb5 Nesta posição ganhadora Sandro dispunha de um minuto para sete jogadas. Inexplicavelmente, demorou demais em fazer suas jogadas. Parecia hipnotizado pelo relógio. Fitava-o insistentemente e não jogava, o que deixou os espectadores frustrados por vê-lo perder merecido ponto. 34...Be8 35.c7

 

Sandro Trindade x Ian Wells

Nesta posição nosso jogador fez o lance tarde demais...

 

Caiu a seta das brancas. Esgotara-se seu tempo regulamentar. Nesta posição vencedora, perde pelo tempo. [35.c7 Bd7 Se ( 35...Bc6 36.Nd4! e se...; 35... Qb7 36.c6 ganhando uma peça. As trocas depois de..; 35...Bc6 36.Nd4 Qxa4 aqui, Mangini esquece que 36... Qxa4 37.Qb8+ e c8=Q++ (Pedro Alcântara) 37.Qxa4 Bxa4 38.Nxe6 Dão final ganho para as brancas (Mangini)) 36.Nd4! Kxc7 37.Qa5+ Qxa5 38.Bxa5+ Kb7 39.c6+ Bxc6 40.Nxe6 g6 41.Nf4 Be8 42.Nxd5 Bc5 43.e6 Bxa4 44.e7 Bf2 45.Nf6 Bd4+ 46.Ka3 Bxf6 47.gxf6 Be8 48.c3 Kc6 49.c4 Kd7 50.Kb3 Bf7 51.Bd2 Ke8 52.Be3 a5 53.Ka4 Bxc4 54.Kxa5 Pedro Alcântara] 0-1



Clube de Xadrez Virtual 16 de novembro de 2004.

por Pedro Alcântara

 



Assim Nascem Os Grandes Mestres - Parte II


Os Jornais




Antes que possamos acompanhar as brilhantes partidas que foram disputadas no I Torneio Peão de Ouro do Brasil, vejamos alguns artigos aqui reproduzidos dos jornais da época, fato que nos irá familiarizar com o "clima" que reinou entre os enxadristas da época ao acompanhar o inédito torneio, se bem que verdade seja dita, lidos hoje em dia percebe-se um distante conhecimento de como se passam as coisas no xadrez o que torna tais artigos mais interessantes ainda, com o jogo tratado por pessoas pouco familiarizadas com ele: um detalhe a mencionar é que os comentaristas dos boletins escolhiam a melhor partida de cada rodada, o que reproduziremos aqui.

O Globo noticiou em 14/01/1982: "Sandro derrota Zuniga e é vice-líder do Peão de Ouro" - O brasileiro Sandro Heleno Trindade derrotou ontem o campeão mundial infantil de 1980, o peruano Júlio Granda Zuniga, e ocupa agora a vice-liderança do Torneio Internacional de Xadrez Peão de Ouro, que está sendo promovido pela Fundação Roberto Marinho e IBM do Brasil no Hotel Othon, com entrada franca. Zuniga, que estava na liderança do torneio, caiu para a quinta colocação, ao lado do brasileiro Aron Correia. Os líderes, após a disputa da nona rodada, são Ian Wells, da Inglaterra, que derrotou ontem o Grande Mestre Saeed Ahmed Saeed, dos Emirados Árabes, Maxim Dlugy, dos EUA e Karl Thorsteins da Islândia; O Dia em 13/01/1982: O brasileiro Sandro Trindade obteve ontem uma boa vitória sobre o ex-campeão mundial Júlio Zuniga do Peru, na nona rodada do Torneio Internacional de Xadrez Peão de Ouro, que se disputa no Hotel Othon. Trindade, agora está em quarto lugar na competição, com 6,5 pontos. O Globo em 15/01/1982 - "Thorsteins reage, empata e é líder do Peão de Ouro - A enorme capacidade de concentração demonstrada desde o primeiro dia do torneio, levou, ontem, o islandês Karl Thorsteins a recuperar-se e empatar com o alemão Richard Lutz. Com isto, ele manteve a liderança do torneio Peão de Ouro, com 9,5 pontos, a apenas 3 rodadas do encerramento da competição. Thorsteins, de 16 anos, esteve em desvantagem desde o começo da partida com Lutz, iniciada às 8 horas, no Hotel Othon. As 13 horas, esgotado o prazo regulamentar de 300 minutos e não conhecido o vencedor, o jogo foi suspenso com um lance secreto de Lutz. Atento a todos os movimentos, o mestre internacional Herman Claudius foi taxativo: "Lutz, caso tenha feito o lance correto, dificilmente deixará de vencer". Thorsteins não acreditou e voltando no final da tarde ao tabuleiro, reverteu as expectativas, levando a partida ao empate. Este resultado, no entanto, prejudicou o brasileiro Sandro Trindade, que também está com 9,5 pontos, nas 13 partidas jogadas - mais uma do que Thorsteins - mas disputa com ele a liderança. Sandro enfrentará amanhã - hoje é dia de folga - o inglês Ian Wells. Ao brasileiro resta vencer as duas últimas partidas - joga ainda com o alemão Richard Lutz - e torcer para um tropeço de Thorsteins contra Carlos Paterson (Brasil), Saeed Ahmed (Emirados Árabes) ou Tomas Darcyl (Argentina). O Peão de Ouro, que terá 15 rodadas, é uma competição promovida pela Fundação Roberto Marinho e IBM do Brasil. Hoje todos os jovens enxadristas conhecerão o Maracaña. Ainda no mesmo artigo a entrevista com Sandro Heleno: SANDRO TRINDADE: Se for eu o ganhador, será uma zebra - Todo mundo precisa de uma profissão. A minha será a de engenheiro eletrônico ou a de analista de computação. O xadrez, até eu me formar, ficará em segundo plano. Depois eu não sei. A indecisão quanto ao xadrez é de Sandro Heleno Trindade, o brasileiro que reúne as maiores possibilidades de ficar com o título de Peão de Ouro, e que ocupa atualmente a segunda colocação na classificação geral do Torneio. - Se eu ganhar será uma autêntica zebra. Não acredito realmente que seja eu o vencedor. E, ainda mais modesto, ele diz jamais ter acreditado que Jaime Sunyê, o preparador da delegação brasileira, o tivesse apontado como um dos favoritos: "Ele não pode ter dito isto, não fui bem no treinamento de Vassouras, onde estivemos concentrados". Bem mesmo ele esteve no campeonato pan-americano de 1980, quando conquistou o título. E, melhor ainda, na estréia em competições internacionais, vencendo o World Open da Filadélfia, em 1977, na categoria Unrated. Mineiro de Belo Horizonte, Sandro começou a jogar xadrez quando mudou-se aos 10 anos para Brasília. Hoje, aos 16, ele é o campeão do Jebs e recorda-se, com carinho, de ter enfrentado o seu ídolo, o soviético Boris Spassky. - Foi quando eu tinha 13 anos e ele fez uma simultânea em Brasília. Fiquei seu fã pela forma com que jogava e, também por sua simpatia. Algo que não viu em Viktor Korchnoi, que também fez uma demonstração em Brasília. Por isto, confessa, não pôde deixar de torcer por Karpov, no último confronto entre os dois enxadristas pelo título mundial. - Mas não foi só por isto. Karpov está num nível muito acima dos demais jogadores e mereceu o bicampeonato. Mas Sandro gosta realmente é de Jaime Suniê, que ensinou-lhe táticas preciosas, as quais transmitirá ao irmão quando voltar a Brasília: o pequeno Romel, de 10 anos, único na casa que também se interessou pelo xadrez.






Clube de Xadrez Virtual 08 de novembro de 2004.


por Pedro Alcântara


ASSIM NASCEM OS GRANDES MESTRES - PARTE I


Assim Nascem Os Grandes Mestres - Parte I




Em 1982 eu vi nascer uma estrela do xadrez sul americano: Julio Granda Zuniga. Inclusive uma grata recordação para sempre: joguei uma partida relâmpago contra ele que contava com 13 anos e já era campeão peruano, porém, embora todos soubessem que ele seria um Grande Mestre no Futuro naquele momento não tinha o título ainda. Eu estava acompanhando como descreverei mais adiante a rodada do dia na ante-sala do Torneio e o garoto Zuniga, após jogar sua partida, apareceu cercado de dois acompanhantes já adultos que ou eram irmãos ou seguranças, porém com certeza aquele tipo físico e facial típico dos peruanos de origem mestiça indio/colono. Joguei com empenho, a oportunidade era única. Ele de brancas e eu de negras, naquela época eu já jogava bastante rápido o ping de 5 minutos de modos que a medida que a partida ia andando, ele ia sempre ficando melhor na posição e criando lances de ataque todo tempo, bem no seu estilo e eu para compensar, jogando o mais sólido e rápido possível, até que caiu a seta dele. Fiquei mais impressionado foi com a reação dele: bateu forte na mesa com a mão cerrada falando num dialeto difícil de entender, lógico estava xingando. Achei que iria pedir para jogar outra, porém, estava com tanta raiva que foi seguro pelos acompanhantes que pareciam querer demove-lo de jogar e sair dali e assim foi. Não tive outra chance de jogar com ele, porém, ele não deve se lembrar de mim, mas eu lembro dele, lógico... Vejamos como se passou o acontecimento: no final de 1981, dezembro para ser exato, algo que não se vê mais hoje em dia, surgiu um anúncio de meia página no jornal o Globo que dizia o seguinte: "UMA ABERTURA EM GRANDE ESTILO - Torneio Internacional Peão de Ouro" - "Dois Campeões Mundiais, um Mestre Internacional de apenas 14 anos, campeões de 11 países e a Seleção de Ouro - formada por cinco campeões brasileiros de até 17 anos - essa turma de jovens craques do xadrez disputará, de 1 a 20 de janeiro de 1982, no Rio Othon, o Torneio Internacional Peão de Ouro. A equipe brasileira está em Vassouras (RJ), sendo cuidadosamente preparada para este torneio e várias outras competições internacionais programadas para 1982. A exemplo do que aconteceu neste ano, com os "Matches Nacionais da Amizade", a atuação conjunta da IBM do Brasil e Fundação Roberto Marinho vai incrementar a temporada de xadrez." - assim colocado e no meio no anuncio uma foto do trofeu onde se lia gravado: The Gold Pawn of Brasil, ao lado esquerdo o logotipo da IBM do Brasil Ltda e do lado direito o logotipo da Fundação Roberto Marinho. Bom, todos ficamos sabendo e logicamente interessados no acontecimento, porém muito mais surpresas viriam com o tempo. Compareci a primeira rodada e a muitas outras ou quase todas, sendo que havia o detalhe: Moro a 90 quilômetros do local do jogo, porém naquela época tinha que estar no Rio a trabalho mesmo e assim foi. O Hotel Rio Othon é junto ao Copacabana Palace, sabia que o local deveria ser confortável e bem ajeitado, porém qual não foi a minha surpresa ao constatar a organização impecável do evento: a) Uma sala para quem quisesse acompanhar com camêras colocadas diretamente acima da cabeça e tabuleiros em cada partida dos 8 tabuleiros com 16 participantes! b) Um boletim que saía do forno como padaria: minutos depois de cada rodada e com comentários! Isso é impensável nos dias de hoje, em termos de Brasil, porém, acho que até para aquela época já era impressionante. Pois bem, quem eram os participantes e os comentaristas? Para não deixar de lembrar, possuo todos os boletins e todas as partidas comigo aqui, devidamente já registradas em formato pgn e base de dados no chessbase. Um detalhe ainda me vem a lembrança: nosso companheiro Renan Levy lá estava também e talvez possa colaborar com mais informações. Faziam os comentários os seguintes jogadores: Rubens Filguth (MI), Herman Claudius Van Riemsdijk (MI), Luiz Loureiro (MF), Darcy Gustavo Lima (hoje GMI naquela época, se não me engano tinha já norma de MI). Para o jornal o Globo comentava o duas vezes campeão brasileiro José Thiago Mangini. Os participantes: Os dois campeões mundiais ao qual se referia o anúncio eram Ian Wells (Inglaterra) que conseguiria terminar o torneio e iria sofrer triste acidente na praia ao final do evento, tendo ficado internado no hospital alguns dias e falecido para consternação da gente, isso dias depois de findo o Torneio, detalhe: não sei o quanto isso possa ter influenciado a promessa que constava no anúncio: "várias outras competições internacionais, programadas para 1982" o outro era provavelmente o jogador dos Emirados Árabes Saeed Ahmed Saeed, um garoto que já era então Mestre Internacional. Outros destaques: - o jovem Julio Granda Zuniga, considerado um gênio, uma vez que nunca tinha estudado xadrez e jogava as aberturas de modo criativo, nada que constasse em livros, os quais ele não tinha. - Maxim Dlugy era uma outra revelação muito forte vindo dos Estados Unidos - Karl Thorsteins vindo da Islandia, país com tradição no xadrez haviam patrocinado o match de Spassky x Fischer em 1972 - Horst Lutz da Alemanha Ocidental muito forte jogador depois MI - Srdjan Zakic da Iugoslávia - Alex Kuznevoc do Canadá - Abraham Bettsak do Panamá (este seria uma surpresa inversa) - Thomas Darcyl da Argentina. Os Brasileiros, lembro-me que pelo menos dois se tornaram Mestres Internacionais: Sando Heleno Trindade de Brasília e Ivan de Souza, naquela época não eram MIs, Aron Correa, tenho que verificar se tem o título de MI, Carlos Paterson, Milton Braitt e Gueber Carvalho fechavam a "Equipe de Ouro do Brasil" que havia treinado dias em Vassouras para o Torneio. Todos estes eram "apenas garotos" porém, estamos iniciando a narrativa de como estes "garotos" se enfrentaram no mais forte Torneio já realizado para a idade deles, como foram as partidas, como tudo se passou e qual foi o destino deles, já passados 22 anos daquele histórico evento e quase esquecido nos dias de hoje..."



FATORES QUE DETERMINAM O CARATER DE UMA POSIÇÃO


Alguns dos fatôres que determinam o caráter da posição são permanentes, outros, temporários.Um fator permanente de importância é o da qualidade e posição dos peões, pois êstes não podem, em contraste com as peças , serem transferidos de uma ala do tabuleiro para outra; posições de peões , como regra , alteram-se gradativamente, enquanto que as peças na maioria dos casos podem mudar de colocação sem dificuldades.Como consequencia, temos a aparente contradição de que os peões, a despeito de seu valor relativamente pequeno são os que determinam , em grande proporção, o caráter de uma posição dada.Outros valores permanentes são superioridade material , e em muitos casos, as posições dos reis.

segunda-feira, 23 de março de 2009

O CARÁTER DA POSIÇÃO E A ESCOLHA DO PLANO


A escolha do plano depende, em qualquer caso , da posição concreta no tabuleiro, deve, portanto, corresponder a esta posição.Julgar uma posisão corretamente e reconhecer suas peculiaridades é um pré-requisito ao encontro de um plano estratégico aceitável.Devemos, portanto, indagar quais os fatores que determinam o caráter de uma posição, e qual o plano estatégico a ser daí deduzido.Naturalmente , a resposta não pode ser dada de forma simples , ela corresponde a questão básica , concernente a totalidade da teoria relacionada a estratégia do jogo, materia muito vasta.Podemos , entretanto , abreviadamente indicar que o caráter de uma posição é determinado pelos seguintes fatores:

1.Relação material, isto é, igualdade material ou superioridade material de um dos lados.

2.O poder de cada peça.

3.A qualidade de cada peão.

4.A posição dos peões, isto é, sua estrutura.

5.A posição dos reis.

6.Cooperação entre peças e peões.


Existem dois tipos de fatores que determinam o caráter da posição: permanentes ou temporários.

Amanhã falaremos sobre esta ideia mui interessante